Naquele dia, o mundo existiu só pela janela. E como aquelas árvores fechavam toda a vista, o meu mundo não teve nem cem metros quadrados, entre dentro e fora de um quarto silencioso, com a TV queimada e todos os livros se acumulando em três pilhas de obrigações que eu já não sabia se cumpriria. Tentei fazer a tarde acontecer mais profundamente, mas não chegou a nenhuma solução além de aumentar ainda mais as pilhas de livros, então me deixei ficar pelo dia, escorrer pela tarde, esperando que fizesse alguma diferença à noite, mas sem achar que algo mudaria de verdade, e quando fossem quase onze, estaria do seu lado, que seja. Fico aqui na armadilha de cobertas, travesseiros, almofadas e pelúcias, que eu tinha montado contra a solidão e ultimamente só continuava a estragar meu sono, que eu gastava encarando a parede, a estampa da fronha, e esperando que alguma coisa, qualquer coisa, abraçasse de volta, como se eu soubesse que isso resolveria, que isso me acalmaria pra poder dormir em paz depois dessas semanas todas, desses anos todos de noites mal dormidas e dias mal vividos, mal acompanhados, e eu já não sabia mais que ditado popular citar pra fazer parecer que houvesse uma solução, que todos eles pareciam rir da minha cara, e agora já nem era só de noite, roubando o meu sono, que, como nunca soube dormir de dia, não tinha como recuperar. Então desenhava, como se soubesse, lia, como se quisesse, e esperava, como se sonhasse, incerta do que viria a seguir, num quase-pesadelo que eu não entendia, não aceitava e não justificava minha insônia e todos os papéis que gastava, tentando listar, relembrar, recuperar do fundo da memória ou do que quer que fosse, os nomes, os rostos, os gestos, os sons que doíam e as desculpas de todos os que o magoaram, todos os que não voltaram, como crianças desaparecidas de suas próprias vidas, enquanto meus dias se tornavam anos, minhas tardes, meses, e já não fazia idéia de por que nome chamar. Duvidava que existissem todos eles, autobiográfia de uma vida que eu nem sempre tive, muito mais bonita escrita do que vivida, que eu esperava que alguém lesse e descobrisse entre o sujeito e o seu verbo, qualquer coisa que cobrasse perfeição, como se naquela palavra, naquela uma hora, eu soubesse que qualquer coisa se colocaria, pra espremer entre os termos da oração uma surpresa, uma promessa do tempo de toda a minha vida, que eu estava pronta pra abandonar. Sem deixar nenhuma grande obra, nenhuma grande saudade, nenhuma grande marca, só o imenso sonho frustrado de não ter sido abraçada em mais que duas ou três noites, justo eu que não havia nascido pra dormir sozinha, pra viver sozinha, e agora sequestrava lembranças em livros, em fotos, panfletos e imagens, de felicidades que não eram minhas. Quantos? Trezentos? Trezentos passados inventados e outros pretéritos imperfeitos que eu sistematizava, rabiscava, enumerava e teria publicado se mais alguém se importasse em saber a história de como eu deixei de sorrir e passei a ser autora, autora de milhares de pedidos não realizados e histórias de amor que nunca aconteceram e que eu tentava levar como se fossem a minha vida, e conseguia, até que chegava a noite e lembrava com os braços inexistentes, vazios até daquela estática no ar, que eu estava sozinha na cama. A princípio, gostava do horário de verão porque a noite demorava mais. Mas um dia percebi que já não fazia diferença, era sempre noite do lado de dentro. Sempre quieto, parado e escuro do lado de dentro, torturada, mutilada e diminuída que não tinha nem cem metros quadrados, contando pela janela as nuvens cinzas e até as árvores, que balançavam vermelhas porque, em algum lugar – eu só não sabia onde – deveria ser primavera. Em algum lugar eu sabia que tinha vida. Em algum lugar o ar não era assim tão rarefeito e o tempo era feito pra quatro braços e dois sorrisos. Talvez devesse queimar a minha cama. Ou eu.
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