Ainda me viro
e me vejo
pronta a te chamar,
a te contar o que aprendi hoje,
coisas que você soube.
Ainda te vejo
em cada bicho,
em cada pensamento,
me surpreendendo olhando
com teus olhos de pesquisa
e o que eu vejo
vira beleza.
Ainda te sinto
em tudo que permanece
como se tua pressa
da vida que se extingue
ficasse um pouco
em tudo
ainda.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Como faço?
Quando vou te ver, te olhar, não sei. Quem sabe? A dúvida é também o que me apega. A possibilidade, sempre ainda viva, sempre ainda aqui, de que a gente nunca mais se veja. E a contrapartida: a de que nos vejamos ainda esse mês.
A imensidão do futuro me acossa, eu me encolho. Minha vida vasta, talvez, anos a frente, talvez, e sua participação incerta. Sua presença numa esquina involuntária, talvez, apenas, um aceno simples, alguma surpresa, de um lado. De outro, sua participação todos os dias, nos acordos tácitos e na redistribuição mais íntima de todos os meus investimentos.
Não saber de você. Não ter notícias suas. Ser possível que elas sejam as melhores, ser possível que haja um novo alguém, ser possível que você esteja sofrendo, na nossa distância, mais do que eu. A infinitude de versões da sua vida me esmaga. É como se eu tivesse sido jogada em qualquer ponto do universo com uma parafernália de astronauta que não me permite morrer logo. Um ponto sem gravidade a partir de onde eu veja, se procurar um pouco, e sem realce, a Terra. E pense, no desespero mais privado, em como faço pra voltar.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Eu não caibo no corpo que me move, na casa que habito, no sorriso que dou, no choro que guardo. Eu não caibo no punho que esmurra a injustiça que sofro, no abraço que eu não recebo, no que quero dar e não posso, no que quero dar e não consigo, no que dou nas pessas o tempo todo. Eu não caibo na luta que deveria me representar, na cama que deveria me aconchegar, ainda que ela tenha espaço suficiente para mim, eu não caibo. Não caibo na fé que eu sinto, no amor que eu grito, na dor que eu abafo. Eu não caibo no oceano onde mergulho, no céu que me cobre, na mão que me afaga. Nunca caberei, sei, bem sei. Viver não tem cabimento. E no entanto vou vivendo a ironia de tentar caber. Vai que?
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