Só depois ele percebeu que tinha uma faca na mão. Não seriam suas chaves? E não eram. Ele soube naquela hora que ela não abrira a porta. Não chegara nem além das escadas. Cada degrau que ele desceu contando como dois e era um só, o deixou meio prédio pra trás, quarenta segundos mais longe da sua casa, doze centímetros mais perto de um rosto que não era o seu e ele precisava rasgar. Descobrir por baixo da gengiva se não havia alguma coisa que tivesse ficado sem ser dita. Mastigar a ponta daquela língua pra achar o parágrafo que faltou. Faltou alguma coisa. Ela desceu correndo as escadas, contando os degraus como dois. Não abrira a porta. Não trancara a porta. Abrira uma boca que não a sua, pra descobrir na saliva dele se não havia ficado um pedido de desculpas. E não havia nada. Nada além de carne e sangue. Ela se derramava pelas escadas e ele só podia pensar em impedir. Pra isso correra, perdera a conta dos degraus. Pra isso ela rasgara a boca. E depois de morta, ela ainda continuava descendo. Lentamente fugindo dele, parada com as pernas separadas por dois degraus e sem saber o que fazer. Sem saber o que tinha feito. Não tinha aberto a porta? Não, não chegaram à rua. Saíram apressados pra não dizer nada que machucasse. Mais. Mas ele queria. Queria se machucar. Queria escorrer e chorar em cima de um corpo desabado que não fosse o seu, mas fosse seu, como sempre fora. E fugiu. Abriu a porta e partiu como se não tivesse sentido. Nunca disse adeus. Nunca disse que o amava. Então ele foi atrás, pra procurar atrás dos olhos algum sentimento. Pra cavar no meio das pernas e descobrir o gosto de verdade da sua solidão. Ela saiu de casa pra abrir o coração. E não o seu próprio. Ela tinha as chaves na mão. Mas elas brilhavam mais afiadas com a luz de emergência. Com a luz de emergência e o eco do elevador, ele tinha certeza que tinha saído de casa com as chaves na mão. As chaves, uma carta, um pedido de desculpas. Uma última declaração. Tudo que lhe havia sido negado. Ele saiu pra buscar por trás dos dentes dela um último beijo que ela não teve. E com a faca ele o roubou. Estava magoado e precisava de uma retaliação. O outro não gritou, reconhecendo que errara. O outro não gritou, percebendo sua garganta rasgada, vazando, derramando, escorrendo escada abaixo até o saguão, onde ela poderia aparecer de olhos arregalados pra gritar que queria um pedido de desculpas. Pra gritar que queria um amor só seu. Pra gritar que era ela que ela queria. De faca na mão, assustando os moradores, contando pra todo mundo uma história que eles não queriam conhecer. Uma história mais triste, agora que ela não abrira uma porta. Uma história mais sozinha, agora que ela não pulara da janela. Uma história mais silenciosa, só com os ruídos do elevador pela parede pra dizerem que ela ainda estava em algum lugar. Não imaginara. Saíra de casa para trazê-la de volta. Ela não queria. Estava escrito em seus olhos cortados que ela não queria. Acredite, isso dói mais em mim do que em você. Não era pra você sair. Não era. O que eu faço de tudo que eu lembro? De tudo que eu sei? De tudo que eu guardei? Eu saí de casa com as chaves pra te dizer que você podia voltar quando quisesse. E você só foi. Escada abaixo, você foi até o saguão, seus olhos cortados, sua boca rasgada, sua garganta aberta, gritando que não me queria. Não eram minhas chaves. E eu tinha certeza...
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